sábado, 31 de julho de 2010

CONGRESSO ANEMIA FALCIFORME A VOZ DE UM PEDIATRA


Como eu vi o Congresso

JOAQUIM CARLOS VANDUNEM*

O Congresso Mundial sobre anemia falciforme que teve lugar de 20 a 23 de Julho de 2010 em Accra (República do Ghana), e que reuniu pela primeira vez, especialistas de todo o mundo para reflectir e partilhar experiências, conhecimentos e também, porque não dizer, angústias acerca de uma doença já centenária, que geralmente não tem cura e que afecta populações em África, Médio Oriente, América (do Norte, central e do Sul), Europa e médio Oriente. O fardo da doença em África é espelhado pelas cerca de 250.000 crianças com anemia falciforme nascidas todos anos e um subsídio de 10 a 20% para a mortalidade neonatal na África do Oeste (segundo estatísticas da Organização Mundial de Saúde).
As prelecções e os debates que lhes sucederam traduziram a complexidade da doença e colocaram a nu as implicações da doença na sobrevida dos doentes, na sua qualidade de vida e a sua interferência na vida dos seus familiares. Os desafios que se colocaram lato sensu relacionam-se com a extensão dos procedimentos de diagnóstico precoce e do arsenal terapêutico que se revelaram efectivos no alívio do fardo da doença, em países desenvolvidos, para os países em desenvolvimento, particularmente os africanos (no qual se inclui Angola)
Ficou claro que existe uma longa agenda científica por cumprir nos países africanos, que vai da triagem neonatal para os grupos e populações de risco à pesquisa de novos medicamentos, passando pelo aconselhamento genético, a vacinação protectora contra as bactérias mais letais nesses doentes e o seguimento adequado dos doentes permitindo que alcancem a idade adulta com qualidade de vida. O detalhe na discussão da agenda foi endereçado aos países (particularmente aos africanos em que a prevalência da doença é elevada), nomeadamente se realizar a triagem universal ou apenas aos grupos de risco, a realização de ensaios clínicos para validar fármacos que se revelaram efectivos em Países desenvolvidos, a optimização dos calendários vacina existentes para incluir a vacina contra Pneumococos e a integração dos programas destinados para a Anemia falciforme nos programas de cuidados primários, permitindo que os cuidados sejam mais abrangentes, mais próximos da população e portanto mais equitativos.
A comunidade científica entendeu que, doravante, os encontros científicos deverão ser bem menos espaçados e com auditoria do cumprimento da agenda ora estabelecida; assim ficou estabelecido que dentro de dois anos, muito provavelmente em Atlanta (EUA), terá lugar o 2º Congresso Mundial de anemia falciforme. Em definitivo o mundo dos doentes com anemia falciforme não voltará a ser o mesmo depois de 20 de Julho de 2010.


*Pediatra do Hospital David Bernardino; Mestre em Saúde Materno Infantil (MSc) e Doutor em Medicina tropical (PhD); professor auxiliar do Departamento de Pediatria da Universidade Agostinho Neto

Sem comentários: