sábado, 28 de junho de 2008

A CIDADE E AS DUAS ÓRFÃS MALDITAS




Quando o nobre cavalheiro estacionou o coche maltratado pelo vermelho rude da poeira, estava o sol a pôr-se no horizonte, confirmando que o crepúsculo tinha meia batalha perdida na sua guerra de sempre contra o breu da noite africana. Nem mais nem menos que a hora crucial da transição melancólica de todos os dias, quando o silêncio inicia o seu percurso rumo ao apogeu e tem como único adversário o cantar entristecido das aves de má fama, corujas e mochos.
Ameaçava chuva, talvez mesmo um dilúvio bíblico, medida, a olho de bom avalista do clima, aquela dança guerreira de nuvens e céu carregados, mas a cidade parecia feliz e despreocupada no seu velho hábito de receber o manto da noite sem sinais de impaciência. Tudo rotinas inevitáveis apenas : o regresso sereno dos homens aos lares depois do desgaste de mais um dia, prontos para os compromissos em família, o jantar, as conversas, as notícias sobre o progresso e os desencantos da vida, os ritos da procriação, o descanso que prepara o novo ciclo a caminho. Do lado de fora, alguns poucos segredos a coberto da escuridão, como a cumplicidade dos labirintos e casarões de fundo falso, que se abrem aos passos acelerados do pecado . Sem dúvidas, um tempo bom para se contrair doenças venéreas !

1 comentário:

BoDy anD SouL disse...

Gostei do que li.
Descobri o seu blog porque buscava fotos sobre o uige.
O meu marido tambem viveu no uige chamava-se Beto Pires.
Bem haja.