domingo, 29 de junho de 2008

ENTREVISTA RETIRADA DO SITE DA UNIAO DE ESCRITORES ANGOLANOS


"Adoro criar situações inverosímeis»



LUÍS FERNANDO Entrevista de Aguinaldo Cristóvão. Linguagem fluída e estórias quase sempre risíveis, até misteriosas, fazem parte do modus operandi de Luís Fernando. O escritor e jornalista manifesta uma preocupação estética intimamente ligada ao prazer que a escrita lhe dá. O realismo mágico tem sido a sua marca, mercê da vivência e da literatura latino-americana que consumiu. Gabriel Garcia Marquez é, aliás, a mais importante fonte de inspiração. O director do Jornal de Angola, como muitos escritores, é contra as definições redutoras. «A literatura é o que sai das mentes das pessoas sem preocupações com correntes, com tendências».




P: A história que descreve em A Saúde do Morto é um bom ponto de partida para conhecer a sua infância. Que aspectos de Tomessa mais lhe marcaram na infância, os quais terá usado na literatura?
R: A Saúde do Morto é o levantar daquelas questões que deixaram em mim dúvidas profundas enquanto menino. No meio rural, como se sabe, os mitos e as crenças são em número sem conta e eu, nascido numa aldeola do Uíge, não poderia de modo algum ver-me livre desse mundo rodeado de estórias por explicar. O que me marcou na infância e está presente com grande peso no meu primeiro livro de ficção é o medo da noite, o medo que no fundo nos é inculcado pelos mais velhos no campo em relação aos demónios que andam à solta de noite e com quem nos podemos cruzar e tudo o que isso possa significar. A poligamia, vista como coisa mais do que normal na aldeia, as suspeitas em relação às pessoas que conseguem enriquecer num meio genericamente pobre, que só o conseguem tendo «mortos» a trabalharem para elas, enfim, um grande número de crenças do tipo «acredite se quiser», que qualquer menino de aldeia se habituou a escutar até se fazer homem. O meu livro é isso, essencialmente.


P: Foi uma criança que, como li, teve invulgar apetência pelas coisas simples. Desde a sua infância no Uíge ao seu amadurecimento profissional em Cuba, teve no futebol uma grande paixão. Faço-lhe duas questões ao mesmo tempo: já pensou escrever sobre futebol e qual tem sido a sua relação com este desporto hoje?
R: Os temas no percurso de um escritor surgem sem um pré-determinismo. Não disponho de um inventário a definir que escreverei sobre tal e tal tema nos períodos tais e tais; a inspiração flui livre e com ela a eleição de assuntos. Neste momento não tenho o tema futebol para um romance possível, conto ou qualquer outro género literário mas nunca se sabe o que poderá vir a suceder amanhã. Obviamente que o futebol continua muito presente nos meus actos. Sofro com o meu Sporting (Clube de Portugal) quando as coisas não correm bem e não perco o bom futebol dos principais campeonatos da Europa. Quanto a escrever, abracei uma onda revivalista desde há algum tempo, assinando algumas notas no Jornal de Angola sobre o desempenho da selecção nacional, os Palancas Negras. Era muito difícil sendo eu o jornalista desportivo que fui na década de 80, permanecer indiferente à campanha dos Palancas rumo ao CAN e ao Mundial da Alemanha.

1 comentário:

BoDy anD SouL disse...

Ola Luis, penso que ja tinha deichado um pequeno comentario ontem. Fiquei fascinada com a descuberta do seu blog. O meu ex companheiro Nasceu tambem imagino numa aldeia no uige, ouvi muitas estorias e ganhei um carinho imenso por tudo a seu respeito. De momento a minha filha esta a escrever uma pessa de teatro a qual ela ira dirigir no proximo ano intitulada "The Rose of Angola". sera basiado em certas passagens da vida do pai dela e foi ao pesquisar sobre angola e o uige que encontrei o seu blog e para alem de ter uma familia encantadora e parecer ser um pai orgulhoso e sinto um amor enorme pela esposa. e delicioso de ver e de ler. Pelo que me dou conta acho que iria adorar os seus livros, quem sabe um dia que va a Portugal eu os consiga, ou quem sabe ir a a Angola, isso entao seria ainda melhor! Mas isso e so sonho, mas ninguem sabe as voltas que a vida nos da. Penso que virei dar umas visitas ao seu espaco de vez em quando, Tudo de bom!